O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA
INTRODUÇÃO
Apóstolo em latim significa “enviado” e conta a história que após a morte de Cristo, São Tiago foi enviado para os confins da península ibérica, região que hoje é a Galícia, para transmitir as mensagens do Cristianismo, e Tiago deixou plantada nestas terras distantes a primeira semente do que viria a florescer pelos séculos futuros.
Retornou a Palestina e no ano 44 morreu como mártir, decapitado por ordem do Rei Herodes. Seu corpo insepulto foi recolhido por dois de seus discípulos, Teodoro e Atanásio. Como Tiago havia manifestado o desejo de ser enterrado em terras ibéricas, diz a lenda que seus dois discípulos transportaram seu corpo para a Espanha. Após desembarcar na costa da Galícia subiram o rio “Ulla” e o enterraram no “Monte Libredon”.Com o tempo o fato foi caindo no esquecimento até que no ano 813 um monge chamado Pelayo, retirou-se para viver como eremita nessa mesma região.
Sobre uma colina no bosque de Libredon havia duas antigas necrópoles (cemitérios) abandonadas, uma Romana e outra Visigótica, avistando uma chuva de estrelas que parecia cair sobre essa colina, Pelayo interpretando esta visão como um sinal divino, foi examinar o local e ali encontrou o velho sepulcro. Informou então ao bispo Galego “Teodomiro” que o havia achado em um campo de estrelas, isto é (Campus Stellae) em latim que deu origem a palavra Compostela.

O Rei de Astúrias, Afonso ll, no ano 829 após tomar conhecimento da descoberta, nomeou São Tiago como patrono oficial da Espanha e ordenou a construção de uma capela de pedra sobre o sepulcro.
A partir de então, o local se transformou em um centro de referência para toda cristandade, e passou a atrair visitantes de todos os pontos do planeta que queriam seguir o caminho das estrelas para ganhar o perdão de seus pecados. (Campus Stellae), pois todo este trecho fica sob a “Via Láctea”.
Existem também o Caminho Aragonês, a rota da costa, o caminho do Oriente, o caminho Inglês e o caminho Português.
Conta-se que o Imperador Carlos Magno fez o caminho francês, inaugurando este itinerário Jacobeu. Além de seu significado espiritual, o Caminho de Santiago foi declarado em 1993 “Patrimônio da Humanidade”

Essa corrente de peregrinação aumenta a cada Ano Jubilar. Isto acontece todos os anos em que o dia do Apóstolo, (25 de Julho) cai no domingo. Ou seja, o ultimo ocorreu em 2010 e o próximo será em 2021.
APRESENTAÇÃO
.jpg)
29 de Abril
As 10h30. (hora local) desembarcamos no aeroporto de “Bajaras”. Este aeroporto é enorme, com muitas esteiras rolantes para agilizar a mobilização e inclusive um trem interno para ligar um terminal ao outro. Sob o aeroporto existe a estação do Metrô, simplificando muito o acesso ao centro de Madrid.
Tomamos o Metrô a um custo de dois euros e desembarcamos na estação “Mendez Alvaro”, onde fica o terminal de “autobuses”, e as 14h30 do mesmo dia, ao preço de 20,50 euros, já estávamos a bordo de um confortável ônibus a caminho de “León”.
Chegamos em “León” às 19h. Infelizmente o tempo não estava tão bom como em Madrid. Alem do vento cortante, temperatura de 14 graus, nós ainda fomos recebidos com uma fina garoa. Hospedamo-nos no “Hostal Horeja”, (30 euros por pessoa) e após um banho revigorante fomos conhecer a cidade que é muito linda, limpa e com uma arquitetura surpreendentemente conservada. A Catedral em estilo gótico é magnífica. Saciamos nossa fome em uma pequena lanchonete onde pedimos um “kebab” pra dois e afugentamos o frio, compartilhando uma garrafa de vinho. (total 15 euros).
Catedral de León |
Na enorme cozinha do albergue, que é o centro de sociabilidade, lá todos se reúnem, bebem, comem e conversam sobre todos os temas imagináveis. Enquanto preparamos uma leve refeição, conhecemos um jovem Alemão que era recém formado e namorava uma jovem espanhola que também vivia na Alemanha. Ele preocupado com o peso da responsabilidade decidiu fazer o caminho de Santiago para refletir e tomar a decisão correta para seu futuro.
01 de Maio
León |
Refugio H.H.Beneditinas |
Eram 7h, a cidade amanheceu linda e silenciosa com céu de brigadeiro, o painel do relógio eletrônico marcava 2 graus centigrados, mas estava muito agradável para caminhar. A área urbana de “León” é bem expandida, conseqüentemente tivemos que andar muito para sair da cidade e alcançar a área rural, que a partir daí, o caminho segue paralelo a Rodovia Nacional. O trecho é bastante plano com poucos aclives e muito fácil de caminhar. No final da zona urbana, defronte a uma casinha de aparência singela, seus moradores colocaram uma cesta com biscoitos, balas e salgadinhos para que os peregrinos que tiverem fome poderem se servir e fazer um “bocadillo”. Enquanto estava ali, lendo o pequeno cartaz sobre a cesta de guloseimas e tirando algumas fotos, o Sr. Agapito, "el amigo de los peregrinos" proprietário da casa saiu e numa pequena conversa, me disse que sentia muito prazer em ajudar os peregrinos e sua maior recompensa é receber o agradecimento através de algumas cartas que recebe de um sem número de peregrinos espalhados pelo mundo.
Ofertas aos Peregrinos |
“Hospital de Orbigo” recebeu esse nome devido ao hospital que ali foi edificado para atendimento dos peregrinos. A ponte gótica que liga à cidade é chamada de “Passo Honroso” e foi construída no século XIII.
Nos hospedamos no albergue paroquial “Karl Leisner” e como pagamento, uma pequena contribuição de 4 euros. Somando os dois trechos, caminhamos 30 km. Foi o meu erro, pois é aconselhável começar com trechos mais curto e depois ir aumentando paulatinamente, e eu despreparado, ao parar passei a sentir febre e formigamento nas mãos, as pernas doloridas, os nervos enrijecidos e já não conseguia andar nem mais alguns passos. A moça que atendia na recepção, notando o meu estado, muito prestativamente me ofereceu uma pomada para passar nas pernas e me aconselhou deitar por algum tempo. Após poucas horas já estava me sentindo bem melhor, o Frigo se ofereceu para ir até a venda e comprar alguns mantimentos para o jantar e o café da manhã seguinte. Jantamos uma simples e saborosa macarronada com molho de tomate e atum, comemos frutas e pão, tudo acompanhado de mais um saboroso vinho espanhol.
02 de Maio
Palácio Episcopal de Astorga |
Nosso novo destino era “Astorga”, pois é uma cidade relativamente grande e poderia encontrar mais estrutura, o único problema é que são mais 21 km. então combinamos que se as dores voltassem e se não fosse possível caminhar, pararíamos em “Santibañes de Valdeiglessias”, porem como não tínhamos pressa, caminhamos mais devagar e chegamos a “Astorga” por volta das 14h.
Praça Central de Astorga |
Catedral de Astorga |
Depois de um farto almoço e estar com o físico totalmente recuperado saí para tirar algumas fotos. A cidade estava toda enfeitada com as fachadas dos prédios decoradas com a bandeira espanhola, me informaram que era festival em comemoração ao dia da expulsão dos franceses. Visitei a catedral, o palácio episcopal e voltei ao albergue para descansar quando tive outra surpresa, nosso albergue estava recepcionando o congresso dos albergues públicos da região, tinha “Buffet e Cocktail” grátis, ganhamos duas bandejas de Presunto Parma com pão tipo italiano, pegamos nossa garrafa de vinho e ficamos até tarde degustando esse “regalo”.
03 de Maio
Campos de Amapolas |
Fila de mochilas |
Ao entardecer, juntamente com o por do sol, o inglês que dirigia o albergue nos convidou para assistir um ato litúrgico na igreja central construída no século XII. A missa foi rezada em latim com algumas passagens em espanhol, inglês, alemão e Frances.
04 de Maio
Queira ou não, hoje tivemos que levantar cedo, uma moça muito bonita, mas não muito educada, alem de roncar a noite toda, antes mesmo das 6h levantou e sem se importar com os outros, começou a desfazer sua cama e arrumar sua mochila, fazendo muito barulho. Aproveitamos nosso desjejum gratuito e seguimos nosso caminho.
Cruz de Ferro |
“El Acebo”, é um povoado bem agradável, tem armazém, bar, algumas lojas e muitas “Casas Rurais”, são residências transformadas em pequenos hotéis que oferecem diária completa. Aqui procuramos o albergue “Parroquial” mantido com o orçamento da igreja, por isso não cobra nada, apenas um donativo de quem quiser dar. O albergue abre as 15h30 e no momento era 14h então fomos ao armazém onde compramos um vinho por 1,50 euros e com mais 3,50 euros compramos um sanduíche de filão inteiro que dividimos em dois. Feito o saboroso “bocadillo” voltamos ao albergue para tomar um merecido banho e sair para fotografar o vilarejo.
Jantar em El Acebo |
Apesar de nosso parco orçamento, não tive coragem de deixar o albergue sem deixar uma pequena gratificação de 5 euros. Nossa próxima meta foi “Ponferrada”, cruzamos “Riego de Ambrós” e “Molina Seca”, porém esta ultima me surpreendeu, “Molina Seca” é um charme de cidade, talvez seja destino turístico de férias de alguns endinheirados da região, parece um presépio acho que valia a pena parar aqui, mas como havíamos combinado ir até “Ponferrada”, fizemos o planejado.
![]() |
Castelo dos Templarios |
Aqui existe um dos castelos mais espetaculares que eu já vi, castelo com cara de castelo e não aquelas fortalezas que mais parecem coisas de exércitos antigos. Um castelo de cinema como nos contos de fada. Conta-se que este lindo imóvel foi doado aos Templários em 1185 pelo rei Fernando II, encarregando-os da missão de defenderem os peregrinos naquele trecho do Caminho, depois em 1282, a primitiva fortificação foi reconstruída e ampliada à época pelos monges-cavaleiros.
![]() |
Castelo dos Templarios |
Diante da extinção da Ordem, em 1311, registrou-se a disputa da fortificação e seus domínios entre as famílias nobres mais poderosas da região até que o rei Afonso XI de Castela doou-o a Pedro Fernandes de Castro em 1340, e daí se manteria nas mãos dos Castro até 1374. A partir desse ano, a posse do castelo transitou entre diversos e sucessivos membros da família real. Entre 1995 e 2002, com recursos oriundos do Ministério de Cultura, da Junta de “Castilla y León”, da “Diputación Provincial de León” e do próprio “Ayuntamiento de Ponferrada”, executou-se um vasto projeto de intervenção arqueológica, restauro e requalificação do monumento. Atualmente no castelo funciona o “Museo del Bierzo”, com a exposição "Recuperación del Castillo de los Templarios". O conjunto abre ao público de terça a domingo, oferecendo aos seus visitantes, atividades culturais, educativas e de lazer além de restaurante e café. Visitamos também a Basílica de “Nuestra Senhora de la Encina” e ao retornar ao albergue, reencontrei a moça que tomou conta de nossas mochilas, que disse se chamar “Manon Doucet” e que era Canadense de “Sherbrooke” província de Quebec, o lado Frances do Canadá, trocamos o inglês pelo frances e pudemos conversar e compartilhar conhecimentos sobre nossos países e sobre o Caminho de Santiago enquanto o Frigo preparava uma suculenta sopa que tomamos acompanhado de pão e vinho.
06 de Maio
Combinamos hoje de caminhar 22,4 km. que é a distancia até “Villafranca del Bierzo”. Este trecho não é muito irregular, apesar de ser montanhoso, são pequenas subidas e pequenas descidas e tudo ladeado de imensos vinhedos. Não muito longe da cidade passamos por uma vinícola que tinha uma placa a porta oferecendo aos peregrinos uma taça de vinho grátis. Entramos e provamos o saboroso vinho que nos revigorou e deu mais ânimo e energia para caminhar. No vilarejo de “Cacabelos”, uma linda e grande casa antiga me chamou a atenção, era um antigo hospital que hoje foi transformado em hotel, loja, galeria de arte e café. Entramos para visitar e por sermos peregrinos nos foi ofertado um saboroso pedaço de torta e um copo de vinho. Descansamos nos jardins do belo imóvel e saímos, não sem antes agradecer a garota que nos ofertou a torta e o vinho, como ela tinha algumas moedas estrangeiras sobre a mesa, perguntei se era coleção. Com a resposta afirmativa, ofereci uma moeda de 1 real que trazia no bolso. Com um grande sorriso e um abraço pude sentir a felicidade da atendente com este simples gesto. Andamos mais 8 km e chegamos ao nosso destino.
Atravessando os campos de Vinhedos |
Saboreando trutas no Albergo Ave Maria |
Este albergue é privado, por isso pagamos 6 euros por pessoa para a estadia e mais 6 euros pela ceia opcional. Depois que quase todos já tinham jantado e recolhido aos aposentos, fomos convidados pelos nossos anfitriões para degustar umas trutas que foram preparadas especialmente para nós.
07 de Maio
Depois do café “Buffet” simples e farto, ao preço de 2,50 euros, o Frigo combinou com o motorista do albergue de transportar nossas mochilas, já que ele ia até o “pueblo” de “Cebreiro”, 30 km a frente no topo de uma montanha a 1.300 metros de altitude, realmente seria muito mais fácil vencer esta constante subida sem as mochilas. Retiramos apenas nossas blusas e capa de chuva e novamente botamos o pé no Caminho.
Depois do café “Buffet” simples e farto, ao preço de 2,50 euros, o Frigo combinou com o motorista do albergue de transportar nossas mochilas, já que ele ia até o “pueblo” de “Cebreiro”, 30 km a frente no topo de uma montanha a 1.300 metros de altitude, realmente seria muito mais fácil vencer esta constante subida sem as mochilas. Retiramos apenas nossas blusas e capa de chuva e novamente botamos o pé no Caminho.
Saindo de León e Castela entrando na Galícia |
08 de Maio
O frio é imenso e a melhor maneira de amenizá-lo, é pondo o corpo em movimento, tiramos algumas fotos do “Cebreiro” e partimos para “Tricastella” a 23 km.
O frio é imenso e a melhor maneira de amenizá-lo, é pondo o corpo em movimento, tiramos algumas fotos do “Cebreiro” e partimos para “Tricastella” a 23 km.
O Cebreiro |
Depois de preenchida as fichas no novo albergue é que soubemos que este não tinha cozinha, então fomos ao centro de “Tricastella” onde tomei a tradicional sopa galega, trutas, uma garrafa de vinho e mais sobremesa, este é o menu do peregrino que paguei 8 euros por ele.
É bom lembrar que na Galicia todos os albergues mantidos pela província cobram 6 euros como taxa de manutenção, mas entregam aos peregrinos uma capa de tecido descartável para o travesseiro e outra para o colchão. Alem de ser mais higiênico e saudável, nos dá mais conforto para dormir sem ficar apertado dento do nosso saco de dormir.
Este albergue tem duas lavadoras e duas secadoras automáticas que funcionam com moedas, e como eu precisava secar minhas roupas que umedeceram devido a chuva ter penetrado na mochila coloquei as roupas dentro da maquina, depositei as moedas e ai é que percebi que tinha cometido um erro. Coloquei minhas roupas na lavadora e as roupas que estavam úmidas ficaram encharcadas e ainda perdi 4,40 euros.
09 de Maio
Hoje não acordei bem, um resfriado muito forte já me acompanha por algum tempo e pra ajudar a chuva continua. Vesti minha capa e minha mochila e seguimos para “Sarria”, nosso próximo destino. Este trecho também é montanhoso, mas a maior parte do tempo é descida. Ainda bem que a paisagem é muito bonita para compensar a melancólica chuva constante, os espirros, o nariz escorrendo e ainda caminhar na lama misturada com o estrume do grande número de vacas que tem nesta região, realmente não foi muito agradável, mas ainda acho que esta valendo a pena.
Hoje não acordei bem, um resfriado muito forte já me acompanha por algum tempo e pra ajudar a chuva continua. Vesti minha capa e minha mochila e seguimos para “Sarria”, nosso próximo destino. Este trecho também é montanhoso, mas a maior parte do tempo é descida. Ainda bem que a paisagem é muito bonita para compensar a melancólica chuva constante, os espirros, o nariz escorrendo e ainda caminhar na lama misturada com o estrume do grande número de vacas que tem nesta região, realmente não foi muito agradável, mas ainda acho que esta valendo a pena.
cidade de Sárria |
Curiosa árvore |
lindo trecho do caminho na Galícia |
10 de Maio
milenar local para descanso |
O barulho do pessoal no albergue me fez acordar cedo, abri a janela do dormitório e a desagradável visão, a chuva continua caindo sem parar, não eram 7h e eu já estava pronto a caminho de “Portomarím”, nosso novo destino. Este trecho também é acidentado, muitas subidas e poucas decidas e todo na lama e sob a chuva, não é novidade, mas como o cenário é lindo, fico imaginando como seria sob o sol. O frio estava cortante, entre 5 a 8 graus, só parei para vestir a blusa sob o meu casaco corta vento e por volta das 14h30 chegamos a “Portomarím”
Logo na entrada da cidade já se avista a grande ponte construída em 1960 sobre a represa que encobriu a velha cidade, e mais acima sobre uma colina, a nova cidade totalmente reconstruída nos tempos do ditador “Franco”.
Igreja de Portomarim |
Calçadas de Portomarim |
11 de Maio
Hoje apesar do frio, já não chove. É razão suficiente para ficar muito mais animado. Deixamos o centro da cidade e atravessamos uma estreita ponte sobre o rio “Minho” e iniciamos uma interminável subida. O desnível topográfico deste trecho também é bem acentuado, mas são apenas 23 km. para alcançar “Palas de Rei” nossa próxima parada. Este trecho do caminho atravessa vários bosques e riachos com cenários cinematográficos. Aqui próximo, no século XVI existiu um hospital de peregrinos que atendeu o Imperador Carlos I e seu filho Felipe II, os mais ilustres peregrinos dessa época.
No albergue em Portomarim |
Apenas um quilômetro antes de “Palas de Rei”, deparamos com um albergue público de boa aparência, ali nos instalamos. Quando perguntei sobre o uso da cozinha, me lembraram que era domingo e o comercio fecha, podia usar a cozinha, mas não tinha como comprar os ingredientes. Na saída do albergue encontramos outros três peregrinos brasileiros. Um casal cujo marido é médico e mais um rapaz Fiscal do ICMS. O casal fazia o caminho para comemorar os 50 anos da esposa e o rapaz para realizar um antigo sonho. Ali o casal se despediu e continuou viagem e o Paulo, o fiscal, ficou no mesmo albergue que nós então combinamos de caminhar juntos no dia seguinte.
trecho do caminho |
12 de Maio
Hoje acordei muito cedo, fui o primeiro a levantar, não sabia as horas, mas estava escuro. Fui ao banheiro que obviamente estava vazio. Ao voltar para deitar novamente vi que inúmeras pessoas já se levantavam também, então fui fazer minha mochila e botar o pé no caminho.
Hoje acordei muito cedo, fui o primeiro a levantar, não sabia as horas, mas estava escuro. Fui ao banheiro que obviamente estava vazio. Ao voltar para deitar novamente vi que inúmeras pessoas já se levantavam também, então fui fazer minha mochila e botar o pé no caminho.
Ponte milenar em estilo romanesco |
O animado grupo caminhava conversando sobre os mais variados assuntos quando o professor sugeriu não pararmos em “Melide”, pois esta parte do caminho é quase todo plano e poderíamos alcançar “Arzua” sem muito esforço, eu concordei, mas quando passamos por “Melide” me arrependi pois a cidade é bonita e valeria a pena dedicar algum tempo a ela, alguém sugeriu almoçar em “Melide” afinal a oferta de restaurantes é grande e os pratos pareciam bem apetitosos. Todos concordaram então nos sentamos à mesa de um amplo restaurante especializado em comida regional. Por 8 euros eu saboreei um prato local a base de polvo, “Pulpos a la Plancha” acompanhado de um bom vinho e isso me dá água na boca todas as vezes que me lembro. Terminado o intervalo do almoço seguimos caminho para “Arzua”.
Conhecer gente nova sempre nos abre a mente para a cultura e fico bastante agradecido ao professor a verdadeira aula que recebi sobre uma série de assuntos, como sobre a vegetação e sobre a arquitetura, saber diferenciar uma construção milenar se é de origem Celta ou se é Romana, e sem perceber já havia caminhado mais 30 km. e chegamos em “Arzua”.
Neste ponto o Caminho Frances se junta ao Caminho do Norte, e é cada vez maior o numero de peregrinos que se vê no caminho ou na cidade.
Como chegamos tarde e cansados, por volta das 18h, pois praticamente fizemos duas etapas em um dia, preferimos não ir à restaurante para jantar, compramos alguns pães, vinhos e queijos local e ficamos descansando sentados à mesa sobre a calçada defronte ao albergue fazendo o “bocadillo” e sendo carinhosamente acariciado pelos débeis raios de sol que insistiam em nos aquecer até mais de 8h da noite.
Palas de Rei |
13 de Maio
Hoje ao acordar, não tive vontade de levantar, esperei quase todos se levantarem para daí ter coragem de fazê-lo. Acho que sei a razão, é a tristeza de saber que o caminho já está quase no final, apesar das dificuldades, é curioso, mas eu fui pegando amor pelo caminho e agora me sinto como se estivesse me despedindo desse grande amor.
Hoje ao acordar, não tive vontade de levantar, esperei quase todos se levantarem para daí ter coragem de fazê-lo. Acho que sei a razão, é a tristeza de saber que o caminho já está quase no final, apesar das dificuldades, é curioso, mas eu fui pegando amor pelo caminho e agora me sinto como se estivesse me despedindo desse grande amor.
Palas de Rei |
O caminho continua com bosques e campos e quando chegamos próximo a “Arca” o caminho margeia a rodovia. “Arca” e o centro do município de “O Pino”, com população inferior a 5.000 habitantes, é o último município antes de “Santiago de Compostela”.
Nossos amigos de Peregrinação |
Registramos-nos em um albergue público. Após fazer a ficha o que eu mais queria era um bom banho. Mochilas desfeita roupa nova, toalha e sabonete na mão me dirigi aos boxes dos chuveiros quando vi que os boxes não tinham portas e era de uso misto, rapazes e moças tomavam banho naturalmente sem o menor constrangimento, coisas de Europeu e praticamente inimaginável no nosso Brasil.
Minhas pernas parecem ter acumulado um pouquinho de dor por dia e agora resolveu apresentar todas de uma vez. Quando paro, os músculos se contraem e fica difícil retomar a caminhada.
Paisagens Galegas |
Tomei suco de frutas e comi um farto sanduíche que fiz com os ingredientes que compramos no supermercado no dia anterior, sobraram algumas frutas e iogurtes que coloquei na mochila e saímos caminhando meio preguiçosamente, pois é nosso último dia no caminho e eu não tinha pressa nenhuma em terminá-lo.
Poderíamos chegar a Santiago de Compostela ainda hoje, mas certamente não chegaríamos antes do meio dia, hora da missa do peregrino, então paramos em um grande albergue a apenas uma hora antes da catedral, local este chamado de “Monte do Gozo”. É sem dúvida o maior albergue que conheci em todo o caminho, têm 1.968 leitos privados, 400 leitos públicos e mais de 100 vagas protegidas para guardar bicicletas. Aqui tem restaurantes, lavanderia, lojas de “souvenir” e internet café. Tudo dentro da enorme área do albergue que é praticamente uma cidade onde a população se renova todos os dias.
"Orreo" Espécie de celeiro |
15 de Maio
Hoje é o grande dia, completamos esta hora final de caminhada toda dentro do perímetro urbano da cidade, que é bem grande, passamos por varias e largas avenidas e grandes praças, de repente uma pequena desatenção e pronto, perdemos as setas amarelas indicativas do caminho. Veja que irônico, mais de 330 km sem errar a direção e depois a poucos metros da grande Catedral, nos perdemos. “Quem tem boca vai a Roma”, quero dizer, a Santiago. Perguntamos a direção a um transeunte e este nos colocou no caminho certo novamente, estávamos bem “cerca”. Assim que visualizei a Catedral, vi que ela é majestosa e com o seu interior ainda mais majestoso. O portal com a imagem de Deus e abaixo a imagem do apóstolo Tiago e rodeada de incontáveis esculturas magnificamente esculpidas. O altar enorme com a imagem do apóstolo ao centro e sob a imagem, a urna com os restos mortais de Tiago.
Hoje é o grande dia, completamos esta hora final de caminhada toda dentro do perímetro urbano da cidade, que é bem grande, passamos por varias e largas avenidas e grandes praças, de repente uma pequena desatenção e pronto, perdemos as setas amarelas indicativas do caminho. Veja que irônico, mais de 330 km sem errar a direção e depois a poucos metros da grande Catedral, nos perdemos. “Quem tem boca vai a Roma”, quero dizer, a Santiago. Perguntamos a direção a um transeunte e este nos colocou no caminho certo novamente, estávamos bem “cerca”. Assim que visualizei a Catedral, vi que ela é majestosa e com o seu interior ainda mais majestoso. O portal com a imagem de Deus e abaixo a imagem do apóstolo Tiago e rodeada de incontáveis esculturas magnificamente esculpidas. O altar enorme com a imagem do apóstolo ao centro e sob a imagem, a urna com os restos mortais de Tiago.
A construção da catedral foi iniciada em 1.075 em estilo românico e acrescida com outros estilos, como o gótico a cerca de 300 anos atrás.
Catedral de Santiago de Compostela |
A igreja estava lotada, ficamos em pé. Uma freira começou a preparar os fieis para o ritual da missa, ensinando alguns cânticos em latim e depois citar a nacionalidade e de onde partiram os peregrinos que assistiam aquela missa. Após ouvir minha citação, assisti a missa emocionadamente.
O ambiente, os cânticos, o momento, tudo emociona. Pedi perdão por meus pecados e me comunguei, coisa que não fazia já há algum tempo. Quase no final é balançado o “botafumero”, o gigantesco incensário balançado por quatro monges fecha o ritual religioso.
Imagem de Deus a porta da Catedral |
Urna com os restos mortais de Tiago |
Interior da Catedral |
Procurei por um “locutório”, cabine telefônica e telefonei para minha família para informar que havia terminado minha peregrinação. Realmente estou feliz, pois depois do infarto que sofri alguns anos antes da viagem, estava me sentindo incapacitado e um pouco inútil, mas esta prova de resistência, de fé e as meditações pelo caminho devolveram-me a certeza que ainda posso ser útil e ajudar os meus familiares, filhos e netos a serem ainda mais honrados, justos e felizes. Almoçamos todos juntos, eu Osmar, o Frigo, o Paulo e o professor José Luiz.
16 de Maio
Fretamos um Taxi-van e fomos a “Finisterra”, apenas para cumprir um tradicional e antigo ritual de queimar a beira mar as roupas velhas e desgastadas que foram usadas no caminho. A cidade é bem agradável, típica colônia de pescadores com bons restaurantes e um ar de tranqüilidade que da vontade de ficar, mas temos que ir embora.
Queima das roupas velhas e desgastadas |
Marco final do caminho em Finisterra |
Osmar.
Mais uma vez, viajei...
ResponderExcluirGostei muito do relato, e das fotos. O Fotografo profissional Osmar eu já conheço, mas o Escritor e Blogger estou tendo o prazer de conhecer nestes textos. É uma ótima surpresa!
FIZ A VIAGEM DIA-A-DIA. CAMINHEI AO LADO DO FRIGO E OSMAR SEM ME CANSAR. GRAÇAS AO RELATO MINUCIOSO E AS ILUSTRAÇÕES, PASSEI FRIO, SEDE E FOME. SACIEI SEMPRE COM BONS VINHOS E REFEIÇÕES TÍPICAS. CHEGUEI ATÉ A SENTIR O SABOR DOS QUITUTES DO FRIGO. DEI RISADAS COM OS COMENTÁRIOS DOS ESPANHÓIS PELO "CAMINO". ME ACOMODEI MAL NOS BELICHES. FIQUEI COM MUITA RAIVA DA MOCINHA BONITINHA QUE PERTURBOU O SONO DOS PEREGRINOS. OS BANHOS QUENTINHOS REFRESCARAM-ME.
ResponderExcluirESSE O RELATO ESTUPENDO QUE NOSSO MAIS NOVO CANDIDATO À ABL, NOS BRINDA. FAZENDO A GENTE VIVENCIAR CADA ETAPA. AH! ONDE É MESMO AQUELAS DUCHAS COLETIVAS SEM PORTAS?
COMO É BOM SER SEU AMIGO, CARO OSMAR. PARABÉNS. SIGA EM FRENTE. VIAJE SEMPRE E NOS GUIE POR SEUS CAMINHOS.
VILMAR O. BRUNO